Chamada para artigos, textos, ensaios visuais

2026-03-23

REVISTA DO MUSEU LASAR SEGALL

DOSSIÊ – NÚMERO 2/2026

ARTE PÚBLICA PARA MUITOS PÚBLICOS: DINÂMICAS DE PRODUÇÃO E APROPRIAÇÃO DA ARTE PÚBLICA NA AMÉRICA LATINA

Editores convidados:

Rafael Dias Scarelli

Professor de História da Arte e da Imagem da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV-UFG). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.

Luis Gómez Mata

Curador do Museo Nacional de San Carlos. Doutorando e Mestre em História da Arte pelo Instituto de Investigaciones Estéticas da Universidad Nacional Autónoma de México (IEE-UNAM).

 

A partir da segunda metade do século XIX, e de forma cada vez mais intensa até as primeiras décadas do século seguinte, o espaço urbano das grandes cidades latino-americanas tornou-se o cenário para a inscrição de numerosos monumentos públicos, de soberbas estátuas equestres a hermas, obeliscos e colunas mais modestas. Por um lado, não apenas por meio da escultura pública, mas também da toponímia urbana, buscava-se fazer justiça à memória daqueles então reconhecidos como heróis nacionais – figuras geralmente ligadas à luta pela emancipação do jugo colonial e à organização do novo Estado nacional –, transformando o tecido urbano em uma “lição pública de história”, para usar as palavras de Rodrigo Gutiérrez Viñuales,[1] ou em um “livro didático de religião cívica”, conforme Mauricio Tenorio-Trillo.[2] Por outro lado, em meio à euforia provocada pelo progresso econômico advindo da plena inserção nacional no mercado mundial, esse mobiliário de pedra e bronze também servia para emular o modelo europeu de urbe cosmopolita, visto ao “espelho de Paris”, como sintetizou José Luis Romero.[3] A arte pública latino-americana surgiu, dessa maneira, atrelada à escala monumental e aos materiais nobres, assim como ao esforço autocelebrativo das elites políticas e sociais em afirmar o bem-sucedido caminho rumo à modernidade percorrido pelas jovens nações americanas até então, sob a sua guia.

Muitas décadas depois, enquanto parte dessa estatuária urbana ainda resiste de pé, em meio à justa iconoclastia antirracista dos movimentos sociais, ao descaso dos poderes públicos com o patrimônio urbano e à indiferença da maior parte dos transeuntes contemporâneos, o espaço público das cidades latino-americanas passou a acolher uma variedade de novas formas de expressão artística e cultural. Frequentemente com viés dissidente e questionador, a arte pública latino-americana do tempo presente abrange desde iniciativas temporárias e efêmeras a intervenções duradouras, promovidas, com ou sem a chancela dos órgãos de gestão urbana, por artistas individuais ou coletivos e por grupos de militância política e social. Talvez o único traço definidor compartilhado por esse heterogêneo conjunto de obras atreladas à arte pública seja o fato de que, ao coexistirem no espaço público e diante de “muitos públicos”, como expressa o título do nosso Dossiê, estão sujeitas às releituras e ressignificações promovidas por seu contexto urbano e pela interação potencialmente destrutiva com os citadinos. “Sem vitrines nem guardiães que os protejam”, como acontece nos museus, indica Nestor Garcia Canclini, onde “os objetos históricos são subtraídos à história e seu sentido intrínseco é congelado em uma eternidade em que nunca mais acontecerá nada[4], os monumentos e demais obras de arte presentes no espaço público estão mergulhados nas contradições da vida urbana cotidiana, disputando espaço com o brilho noturno da luz néon e com os anúncios publicitários.

A proposta do dossiê Arte pública para muitos públicos: dinâmicas de produção e apropriação da arte pública na América Latina, é acolher textos que explorem alguma entre as muitas possibilidades de linguagens, formatos, materiais e suportes por meio dos quais se manifesta a arte pública latino-americana de hoje, desde os monumentos escultóricos à arte mural e ao grafite. Esperamos que os trabalhos valorizem a dimensão “pública” da obra ou do conjunto artístico analisado, explorando os possíveis sentidos e conflitos que essa dimensão engendrou, seja em seu contexto de idealização ou implantação, seja ao longo da trajetória dessas obras após sua entrada no espaço público. Estar no espaço público e falar para muitos públicos, o que isso pode significar e que tensões pode gerar, no presente ou no passado? São essas questões que servirão de mote para este Dossiê. Pensamos que não poderia haver proposta mais adequada para a segunda edição da Revista do Museu Lasar Segall, uma publicação de acesso aberto vinculada a uma instituição cultural de caráter público, que, esperamos, também atinja e dialogue com muitos públicos leitores.

 

[1] Rodrigo Gutiérrez Viñuales. Monumento conmemorativo y espacio público en Iberoamérica. Madrid: Ediciones Cátedra, 2004, p. 9 [edição digital].

[2] Mauricio Tenorio Trillo. I Speak of the City. Mexico City at the Turn of the Twentieth Century. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

[3] José Luis Romero. Breve historia de la Argentina. 5ª ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2013 [1ª ed. 1965], p. 109.

[4] Nestor García Canclini. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2015 [1989], 301.